Nós feirenses somos ortodoxos!!!

|Por Uyatã Rayra|

Não sei mais o que inventar às pessoas que me perguntam o que é que Feira tem! Tal pergunta corrói-me como ácido; meu amor por Feira é míope, iludido, esperançoso...


Feira tem mais de 600 mil pessoas, é um dos maiores interpostos comerciais, maior entroncamento rodoviário do norte-nordeste, está entre as 100 maiores cidades do Brasil e é a 2ª maior cidade da Bahia. Nada disso é de fato relevante, perante a teima em conservar um provincianismo que nos remete às vilas comandadas pelo coronelismo dos séculos passados.

Desde que nasci nossa cidade é comandada por velhos caciques que impregnam nosso ar sertano-agrestino com um ranço ruim que nem um zetalitro de alfazema consegue purificar. Á medida de esclarecimento, tais foram nossos prefeitos desde o ano que nasci: José Falcão, Colbert Martins, João Durval, José Raimundo, José Falcão de novo, Clailton Mascarenhas, José Ronaldo dois mandatos consecutivos e finalmente Tarcízio Pimenta. José Raimundo e Clailton eram vices que se tornaram prefeitos, o primeiro pela renúncia de João Durval – pois desejou se candidatar a governador – e o segundo pela morte de José Falcão. De todos acima, o único que se salva – segundo as lendas que me contaram – é Colbert Martins . Nós feirenses somos ortodoxos, e adoramos ser assim!

O reflexo desse conservadorismo não é só político, é estético, cultural, comportamental, cerebral!!! Recordo-me transtornado do dia em que Yohanna - essa mesma que escreveu o texto “É companheiro, estamos na superfície”*- me falou que estava se saindo de Feira, pois queria se embrenhar no Teatro, e que não dava para viver o seu sonho aqui; foi pro sul. Acredito que ela não conseguiu mais conviver imersa em tanta inércia cultural. E será mesmo esse o replay ?? “O seu amor, ame-o e deixe-o”?!?!

Tivemos alguns avanços nos últimos anos, reconheço! As artes plásticas e o teatro são as artes que ensaiam os passos mais largos, e estão tendo uma representatividade cada vez maior na cidade, mas ainda assim permanecem ilhados, setorizados; avançam timidamente além dos seus redutos e não conseguem congregar ao menos 1% da população. Vem-me a mente uma situação semelhante, que inundava o Recife da década de 80. Lá foi necessário emergir a cena Manguebit para que pudesse ser resgatada a identidade cultural.

Semana passada estive na Paraíba - na qual Chico César é secretário de cultura. Dos sete dias que passei em João Pessoa, não consegui identificar uma apresentação artística que me desagradasse, e fiquei muito impressionado com isso. A banda mais troncha era no mínimo surpreendente, a mais pop possuía arranjos instigantes. Presenciei desde os encantos da cultura de raiz à levitação da psicodelia. A produção cinematográfica resgatava os tempos do cinema mudo- a trilha sonora era feita ao vivo pela banda Burro Morto. Os grafites no trem feitos por Derbyblue transcendiam as linhas imaginárias...

23 anos em Feira e não presenciei metade do que em sete dias na Paraíba. É decepcionante para mim perceber o quanto Feira está estacionada. O que temos a nos orgulhar além do dinâmico comércio? O Amélio Amorim, o Cuca, o Margarida Ribeiro, o Maestro Miro, o MAC, o Museu Casa do Sertão, O Bando Anunciador, o Mercado de Arte, o Centro de Abastecimento, o Observatório Antares, o Parque do Saber, a Biblioteca Municipal, a Senzala, a Biblioteca Julieta Carteado, a UEFS, o Shopping Boulevard, o Jeca Total, a Cidade da Cultura, e os outros mil bares da cidade?!?!?!? Só para apreciarmos o valor que a política municipal agrega à cultura local, atentemos para a nossa Secretaria de Cultura – que na verdade é a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, como se fosse tudo um só ramo. Esta é chefiada pelo secretário Euclides Artur Costa de Andrade, que não é nem artista, nem esportista, mas sim advogado.

Desde o ano passado acompanho os árduos esforços do “Feira Coletivo” na tentativa de movimentar a cidade criando um público, uma cena - PARABÉNS PARA ELES!!!. Hoje não consigo vislumbrar outra banda que tente agir ativamente na criação de uma cena em Feira de Santana, além da Clube de Patifes. Acendamos o sinal vermelho e soemos o alarme, FEIRA VEGETA. Ano passado houve a tentativa de se realizar o “Feira Noise Festival”, e mesmo tendo sido realizado a duras penas, não veio a atingir grande sucesso, justamente por não dispor de recursos financeiros suficientes. Em conversa com um dos organizadores, ele revelou-me que a intenção era criar um espaço multimídia dentro do festival, miscigenando uma feira de artesanato, com apresentações circenses, cinema, cultura de raiz, dança e música. Um projeto impecável! Contudo, quando pediu apoio à prefeitura municipal - menos de 20 mil reais –, ela negou, alegando indisponibilidade de recursos. Oras, paga-se cachês extraordinários para bandas de fora na inauguração de obras, no Micareta, no São João, no São Pedro, na Expofeira, e não há disponibilidade de recursos para investir na fermentação da cultura da própria cidade?? Será que o retorno para a cidade será mais profícuo, ao investir dinheiro somente na cultura forânea ??

Até a vila do Capão, que não deve somar mais que 3000 mil pessoas, se organizou e promoveu em junho desse ano o 1º Festival de Jazz do Capão - contando com apresentações do Circo do Capão, de bandas locais, e forasteiras. Tenho certeza que Feira de Santana tem potencial para ser um pólo cultural nacional. Realmente não compreendo o que nos é empecilho! Será o provincianismo da política municipal?? Será a nossa própria ortodoxia? Antes de mais nada é necessário uma insurreição mental!



O Texto citado pelo autor foi publicado no blog da revista Transa, querendo conferir Clique AQUI

1 comentários:

Dom disse...

Compartilho da visão do autor nesse texto, que expressa direta e simplesmente o sentimento dos feirenses ligados à arte, à cultura.

É dever de quem pensa assim "sair do armário" da inércia em que nos vemos no nosso município. Por isso, parabéns pelo protesto, parabéns pela iniciativa. O blog já está devidamente assinado...

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