Ressaca do Feira Noise

Algum personagem de quem hoje pouco me recordo objetivamente me alertou – sem se equivocar – que uma banda sempre se revela já na passagem de som, por mais enfadonha que esta possa ser e por mais inclassificável que pareça o direcionamento assumido pelos músicos. A pernambucana A Banda de Joseph Tourton, primeira atração a se apresentar na Ressaca Feira Noise Festival, gritou a que veio com o antológico riff de "Iron Man", do Black Sabbath. É certo que escolha melhor não poderia haver. No entanto, engana-se o leitor se acaso me imagina, neste momento, diante de uma banda de heavy metal. Ou de hard rock. Ou de stoner.
Para além de quaisquer denominações simplórias, A Banda de Joseph Tourton talvez represente como nenhuma outra a alma do Feira Noise Festival, cuja diversidade foi de encontro ao senso comum de muitos que lhe atribuíram a alcunha de “festival de rock”. Impor um rótulo ao quarteto instrumental em questão ou mesmo enquadrá-lo numa categoria específica ser-me-ia tão constrangedor quanto sustentar essa visão restrita do evento. Não é isso o que os integrantes desejam, suponho. Tampouco esta humilde observadora o quer. O mesmo posso afirmar do público, que às 21:30 ingorou o atraso superior a duas horas para se integrar à atmosfera que proporciona o caldeirão sonoro da banda. Um som remetente à energia do rock and roll e a uma brasilidade genuína, transitando de modo confortável entre referências aparentemente dispersas.
Já na terceira ou quarta canção, emendada com a tal habilidade peculiar aos artistas e grupos dedicados ao instrumental, até os menos afeitos ao estilo mostravam-se em sintonia com a variação rítmica impressionante. É o jazz invadindo o espaço. É, por conseguinte, a bossa nova. É o percurso de uma flauta surpreendente e bem-aventurada, que enriquece harmonias sólidas e expansivas em sua essência básica. Mais uma vez, a linguagem dos acordes prova-se universal, ainda que, uma vez tão capaz de atingir nosso espírito, não necessite de ratificações cabais.
Quando a banda acaba de anunciar sua última música, impossível não notar quão curta foi a apresentação. Ainda mais improvável é fechar os olhos para a maturidade de quatro músicos jovens. Se a juventude contribui com a espontaneidade, o talento demonstrado na incorporação de influências e no domínio dos instrumentos reserva à Banda de Joseph Tourton um lugar especial no cenário brasileiro independente. E deixa-nos, então, a certeza de que coisas boas circulam à espera de chegar aos nossos ouvidos.

Segunda banda da noite, Clube de Patifes não demorou a entrar no palco. Caracterizar um show desse ícone local do blues-rock significa, para a maioria, descrever o óbvio. A propriedade do repertório, a desenvoltura e a competência são algumas das qualidades que explicam o porquê de o grupo sempre conquistar aqueles que já o conhecem de longa data. À medida que as apresentações se repetem, as reações positivas do público correspondem. Pablues (vocal e gaita), Jo Capone (baixo), Paulo de Tarso (bateria), Stephen (atualmente na guitarra) e seus respectivos pais, lembrados pelo vocalista ao citar os integrantes, jamais deixarão de ser bem-recebidos.
No set list, canções dos dois álbuns de estúdio – Do Palco ao Balcão e Com um Pouco Mais de Alma. "Mulher de Repente", uma das preferidas da plateia, figurou na abertura, ao passo que "Caminhos de Cruz" apareceu no encerramento ao lado de "Roadhouse Blues", do The Doors. No mais, uma versão do Trio Nordestino deu conta das influências regionais corriqueiras da banda. Canções como "Um Dia Blue", por sua vez, reafirmaram a conexão com a expressão original do blues. Expressão esta muito mais próxima da nossa realidade do que se costuma pensar.


Depois da meia-noite, a Falsos Conejos retomou a proposta instrumental e ofereceu ao público uma apresentação marcada por linhas de baixo em destaque, timbres melodiosos, distorções e um peso constante. Algo que ultrapassa o rock e estabelece fronteiras com a psicodelia, o jazz e até coisas mais inorgânicas, por assim dizer. Existe um quê de sombrio na sonoridade um tanto virtuose dos argentinos. Tamanha singularidade é possivelmente responsável pelo prestígio de seu desempenho ao vivo em Buenos Aires, tendo sido eleito um dos dez melhores shows independentes da capital.
É importante lembrar que a presença da banda em Feira de Santana foi viabilizada pela Turnê Fora do Eixo. Ao lado da Joseph Tourton, o trio encara uma maratona de shows quase equivalente à média de um por dia. Aproveita, também, para divulgar o álbum YYY, lançado em outubro último. Os pontos fortes conferidos no registro de estúdio se reproduzem ao vivo, inclusive o baterista que se sobressai gradativamente até ditar um ritmo enlouquecedor. A isso, acrescenta-se o poder de interatividade de um grupo que quase consegue a façanha de tornar-se espectador de si próprio. É a impressão que nos fica inevitável ao assistirmos a músicos entregues àquilo que produzem, dispostos a senti-lo instantaneamente.
Ao final, baixo e bateria passaram a se guiar por um desfile de bases e solos em altíssima velocidade. Baixo, guitarra e bateria. Precisamos de algo mais? A Falsos Conejos, numa despedida inesperada e lamentada, respondeu que não. Resta-me apenas estar de acordo.

A Cidadão Dissidente, de inspiração punk até no nome, começou prestando seu tributo aos Ramones. “I don't care about this world/ I don't care about that girl I don't care”. Em seguida, menção ao rock nacional com “Que País É Este”. Nenhuma mudança nos acordes, obviamente. A cartilha “do it yourself”, afinal de contas, é a mesma em qualquer lugar: letras de protesto, seja em tom de engajamento ou em tom de indiferença. Consideremos que a banda passeou pelos dois extremos em, no máximo, três minutos. O bastante para contentar o público. Dinossauros progressivos que me perdoem, mas isso não é para qualquer um.
Entre covers da fase inicial dos Titãs, do fugaz RPM e do Ultraje a Rigor, uma série de canções autorais em que percebemos uma maneira peculiar de gritar contra. Não se trata de denúncia puramente social, mas de uma reflexão direta sobre as circunstâncias de uma condição individual angustiante – tema exposto no clipe oficial de "Anjo Atormentado", no qual devo elogiar a produção e o desenvolvimento bem-sucedido de uma ideia por meio de recursos simples.
A presença de palco, conforme é do conhecimento de todos os que acompanham a Cidadão Dissidente, é uma atração a mais. Na última música, boa parte do público aproximou-se para aproveitar os instantes derradeiros da Ressaca e a agitação que somente o rock and roll em seu estado mais primitivo pode oferecer.

Por Ana Clara Teixeira















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