It’s only rock and roll... and it’s good enough

O rock and roll chegou ao século XXI completando cinco décadas de existência e dando indícios de certo desgaste, depois de tanto expandir sua fórmula básica. Do progressivo ao punk, do art-rock ao heavy metal, do hard rock ao grunge, voltar às raízes parecia o único antídoto ou a saída remanescente quando nada mais restava para se inventar. A geração dos 90’s já retratava o aborrecimento, como se àquela altura o rock houvesse perdido o senso de diversão e se afogado num mar de apatia. Porém, nos anos que se seguiram, a necessidade de suprimir as tendências suicidas não demorou a falar mais alto. Era chegado o momento de virar o jogo, de recuperar os clichês vitais. Em outras palavras, era a vez do revival.
É de se supor que as exigências maiores do público entusiasta do revival sejam diferentes daquela procura habitual pelo novo. Não importando o quanto tenham durado e repercutido, grupos como The Raveonettes, The Libertines, The White Stripes, The Hives, Bloc Party, Interpol, Franz Ferdinand, The Yeah Yeah Yeahs, The Bravery e, evidentemente, The Strokes foram apontados em algum instante como salvadores do rock. De repente, vultos do pós-punk, da new wave e das antigas coletâneas Nuggets ganharam consistência, invadiram as paradas e deixaram no ar uma questão: ainda seria importante criar algo?
A resposta, é claro, vai depender das preferências de cada ouvinte. As inúmeras bandas que sugam os riffs de Tony Iommi tal qual se obedece meticulosamente aos passos de uma cartilha, por exemplo, constituem a prova inquestionável de que há gosto para tudo e de que nem todos querem fazer ou escutar um produto inédito. E é por essas razões, sobretudo, que felizes são as partes onde a diversidade prospera. Feliz é a cena rocker de Feira de Santana, que acaba de ver surgir um possível expoente com o lançamento do EP homônimo da banda Magdalene and the Rock and Roll Explosion.



Em primeiro lugar, a qualquer um de nós é impossível ler/ouvir o nome Magdalene and the Rock and Roll Explosion e não associá-lo imediatamente a tudo que remete à essência do estilo. Para nossa alegria, ademais, em momento algum o EP contraria as expectativas. As duas faixas registradas, a excelente Run Bastard! e a pegajosa – no bom sentido – You’re Mine, são rocks em alta combustão, com algumas variações cujo mérito é o de dar sustento à sonoridade de modo a evitar que esta caia na arapuca do mais do mesmo quadrado e enfadonho. O vocal feminino, na melhor tradição riot grrrl tramada pelas Runaways, torna-se o grande diferencial à medida que une as pontas de um stoner rock que combina referências de várias épocas.
Dizer que a estreia da Magdalene and the Rock and Roll Explosion nos proporciona um rápido passeio por uma das linhas de trajetória do rock está longe de ser um elogio excessivo. Posso ir mais adiante, aliás, assegurando que Run Bastard! empreende essa viagem de frente para trás. A canção começa impetuosa e logo se aproxima da releitura atual do som cru de garagem, que na maioria das vezes abrange uma mistura com direcionamentos menos urgentes, digamos. E assim somos surpreendidos por um refrão daqueles típicos de arena, acompanhado por um riff ideal.
A partir daí, a impressão de estarmos ouvindo uma outra música também é inevitável. Os fortes ecos de Black Sabbath beiram uma versão mais rudimentar para a proposta do Wolfmother e de outras bandas que claramente se inspiram nos pais do heavy metal. Baixo e bateria sobressaem-se, pois a cozinha vai ditando um ritmo marcante e meio quebrado, enquanto os solos de guitarra e os timbres vocais convergem para esse mesmo tom e alcançam um final poderoso.
“Hit hit hit, I have a crush on you/ Leave leave me, I just wanted to prove”. Memorizamos aqui o refrão de You’re Mine, que já denota uma levada mais direta, homogênea, repetitiva. Caso estivéssemos tratando de uma banda do mainstream e de um play em formato convencional, provavelmente seria ela a canção de trabalho. Esse cruzamento entre o pop e o rock visceral lembra The Donnas e Backyard Babies – para ficarmos em citações mínimas –, além de explorar ao máximo as possibilidades de uma produção impecável, a cargo de ninguém menos que André T. (Pitty, Cascadura, Retrofoguetes e outros).
Inclusive, a produção é um ponto que deve servir de lição às bandas iniciantes em geral, não só as feirenses. “Do it yourself” e demais ideologias despojadas jamais devem servir de pretexto para a divulgação de materiais de qualidade duvidosa. Espontaneidade e mau gosto são coisas extremamente distintas, e uma vez que se conta com o retorno de um público ou se deseja conquistar algum, por mais reduzido que seja, convém demonstrar-lhe respeito antes de tudo.
Não recrimino os leitores que cheguem até este ponto indagando o que Magdalene (vocal e baixo), Ikaru (bateria), Pv e Damas (guitarras) trazem de novidade, afinal. Honestamente, não consigo pensar em nada. Penso, contudo, que o rock and roll está livre disso. Deve ser somente ele por ele mesmo, musicalmente despretensioso e cheio de atitude, conforme nos primórdios. Em Feira de Santana, faltava quem realizasse tal busca e se deparasse com seu resultado tão óbvio e deleitoso.
Agora não falta mais. Temos rock and roll puro e elevado à enésima potência. Temos Magdalene and the Rock and Roll Explosion, e eu, caros leitores, mal posso esperar para ver tudo isso ao vivo.

A Magdalene... toca dia 26 de Março no Grito Rock Feira no Espaço Nobre.

Myspace: http://www.myspace.com/wearemagdalene

Por Ana Clara Teixeira

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