GRITO ROCK FEIRA - PRIMEIRA NOITE

Magdalene and The Rock and Roll Explosion

A primeira edição do Grito Rock em Feira de Santana chamou atenção por uma grade bastante diversa na noite de sábado, 26/03. Houve espaço para o rock tradicional, o britpop, o rock mesclado à MPB e até o rap, evitando-se a monopolização. Isso, no entanto, não deve nos levar às ideias de dispersão, distanciamento e ausência de identidade, uma vez que todas as bandas fazem parte do cenário independente. Ao realizar um evento que ocorre em vários pontos da América Latina, o Feira Coletivo Cultural celebra a grandeza desse contexto cada vez mais sólido no nosso município.

O show da Magdalene and the Rock and Roll Explosion começou pouco depois das 19h30. Não foi apenas um show de abertura. Foi, principalmente, a primeira apresentação da banda, o momento de vê-la em ação para além dos estúdios. O set list abrangeu as duas canções do EP homônimo recém-lançado mais uma música própria inédita, todas de inspiração stoner ora centrada nas vertentes, ora atravessando o punk. E, já que tratamos disso, é notável essa capacidade de ir do passado mais remoto ao presente sem fazer questão de ancorar em algum momento específico. Como resultado, ouvimos um som de releitura em sintonia com uma porção de coisas que se tem lá fora, mas consideravelmente novo nos limites locais.

Os covers, por sua vez, apontaram uma familiaridade com as reminiscências daquilo que hoje se entende por atitude ou estilo riot grrrl, caso de “Cherry Bomb”, o clássico definitivo das Runaways, e “Do You Wanna Touch Me”, um dos sucessos de Joan Jett ao lado de seus Blackhearts. Embora baseada na curta versão dos Hellacopters, “Dirty Women” avivou a onipresença do Black Sabbath. Já a versão de C’Mom and Love Me, do Kiss, terminou de estabelecer a ponte com o rock clássico.

Para quem se encontra no começo da trajetória e possui um repertório em formação, a Magdalene fez um show irrepreensível sob os pontos de vista da técnica, da personalidade e do entrosamento. Ainda podemos esperar mais quanto à exploração da performance em outras oportunidades, pois não restam dúvidas de que – apesar da aparente vocação de garagem – a banda nasceu para os grandes palcos, assim como é certo que está destinada aos grandes êxitos.

Universo Variante

Segunda atração do line-up, a Universo Variante (Alagoinhas) teve a missão de assumir a responsabilidade involuntária de segurar o entusiasmo deixado pelo show anterior, e só o conseguiu em instantes esparsos. Exceto a na alusão aos Beatles em “Ticket to Ride” e nas duas ou três levadas mais empolgantes das composições mostradas, a recepção do público foi um tanto morna, o que não nos impede de reconhecer pontos positivos na mistura de rock sessentista, Jovem Guarda e até MPB.

A banda atingiu a maturidade no sentido de definir suas pretensões. Vale a pena destacar tal aspecto, porque não são poucas aquelas que encerram as atividades do modo como deram início, desprovidas de qualquer meta. Falta somente colocar uma dose maior de energia no palco, apostar num instrumental mais incisivo e num trabalho vocal mais equilibrado, buscando também essa evolução ao vivo junto à plateia.

Casa de Vento

Em seguida, a Casa de Vento trouxe o bom indie-rock com raízes britânicas ao qual estamos habituados. Não é à toa que o grupo tem se firmado com o lançamento do primeiro EP e uma agenda impressionante. Toda a repercussão é merecida, dada a qualidade dos músicos, das composições e dos excelentes covers que geralmente apresentam. Destaque, desta vez, para High and Dry – do Radiohead, uma lembrança dos tempos inigualáveis do The Bends – e Accelerate – do penúltimo álbum do R.E.M.

É mero clichê, a esta altura, falarmos da competência e do potencial de Josh, Cordeiro & Cia. A Casa de Vento assimila da melhor forma as experiências vividas até aqui, sabe contornar os problemas técnicos que porventura surjam e convencer o público quando executa o repertório próprio, a exemplo de “O Mistério das Cinco Estrelas” e “Esperando por Godot”. Eis uma banda pronta, segura, merecedora de nosso apoio, prestígio e torcida por novas conquistas.

Quarteto de Cinco

A sonoridade da Quarteto de Cinco, próxima a se apresentar, gira em torno do que se costuma denominar “rock popular brasileiro”. Ultimamente, esse rótulo se confunde com o legado do Los Hermanos na cena alternativa, e a banda soteropolitana procura trabalhar a influência sem se fechar nela. Os covers “Exagerado” (Cazuza) e “Pro Dia Nascer Feliz” (Barão Vermelho) já denotam um olhar ao rock brasileiro dos anos 80. As composições, em número acima da média para a pequena quantidade de anos de estrada, são uma união bem-sucedida entre a base roqueira e o samba, o baião, o soul e vários outros gêneros.

O fato é que a mistura acaba sendo acessível, do tipo que agrada ao ouvintes rapidamente. Remete aos anos 70, Mutantes Novos Baianos, porém um apelo pop contemporâneo emerge de um lugar misterioso, difícil de precisarmos. Ao final do show, nada disso importa. Constatamos apenas o altíssimo nível de musicalidade e profissionalização de uma banda que não precisa de muitos minutos para mostrar a que veio.

E o que dizer de um grupo de rap no palco do Grito Rock? Seria possível preservar os atributos do evento na percepção dos espectadores? O Efeito Zumbi, projeto feirense de forte cunho social, passou o recado sem dificuldade e deixou a resposta aos que permaneceram no Espaço Nobre. Se a cultura hip hop se enquadra àquele velho “ame ou odeie”, cabe-nos tentar levar em conta o ponto de vista de quem realmente aprecia estilo e se sente familiarizado.

Efeito Zumbi

Percebemos que os temas não nos pareceram estranhos, a menos que estejamos de olhos fechados aos problemas da cidade onde vivemos. O andamento sonoro foi inevitavelmente maçante para alguns, mas outros decerto chegaram a notar semelhanças entre o Efeito Zumbi e os nomes nacionais mais conhecidos. As resistências comuns já não bastavam a partir daí, e uma parcela do público se rendeu a essa proposta digna de espaço e amadurecida, a despeito de gostos pessoais.

O rock voltou na última apresentação trazendo peso e melancolia, duas das principais características do som do Garboso. De Vitória da Conquista – onde a predileção pelo rock alternativo se faz notório com o sucesso d’Os Barcos e com a repercussão do show da Casa de Vento por lá – e com quase dois anos de existência, o grupo já tem planos de gravar um CD. Essa suposta pressa justificou-se pela atuação correta de músicos experientes, sobretudo o vocalista/guitarrista Pablo Bahia.

Garboso

A espontaneidade das letras sustenta uma atmosfera meio desoladora que empolgou o público, por mais contraditório que isso possa soar para alguém. Como encerramento, nenhuma banda poderia funcionar melhor: sintetizou a multiplicidade de sons da noite e não forneceu nenhuma pista do que estava por vir. Afinal, quase tudo seria diferente no domingo. O Grito Rock de Feira iria manifestar sua outra face.

0 comentários:

Postar um comentário