3...2...1... e... Saiba como foi o show de lançamento da Magdalene and the Rock and Roll Explosion



A chegada do Outono e proximidade com o Inverno tornam o calor em Feira de Santana suportável durante o dia e à noite provém, com generosidade, uma frieza aconchegante – raríssima aqui em Salvador – daquelas que pede pra nunca sair da cama, ainda mais estando sob braços de carinho.
No domingo, 22 de maio, o céu vertia esse clima que não parecia o mais adequado para a combustão de um show de rock. O absoluto pesar atmosférico não seria capaz, no entanto, de impedir a primeira faísca da banda Magdalene and the Rock and Roll Explosion, que se lançava oficialmente no evento Noite Fora do Eixo.
O lançamento aconteceu no Bar Botekim, reduto das festas realizadas pelo Feira Coletivo Cultural – talvez o único grupo de produtores e agentes culturais que realmente trabalha em prol da cidade. Havia pouco mais de cem pessoas – número de sucesso para a cena alternativa feirense. Em meio ao público, muita gente bacana, amigos e conhecidos. As rodas de conversa e suas intercambiações, junto aos cigarros e bebidas transformavam o domingo outonal em um típico inferninho rocker – cenário perfeito para o estouro por vir.
Passadas as duas primeiras apresentações da Mendigos Blues e da Trônica – vi apenas as últimas duas canções desta, mas me agradou a sonoridade – a MARRE subiu para seu Big Bang. E começaram pretensiosos tocando Young Lust, da Pink Floyd. A execução, ainda bem, estava à altura e confirmava o que já se sabia sobre a banda em releases e via MySpace: a preferência pelo combinado de pop, blues, garage rock, hard rock e punk, sempre orientados para o som feito nos anos 70. Como a banda possuía somente duas músicas gravadas, apelou para clássicos do rock e apresentou duas inéditas. O tracklist:

1. Pink Floyd – Young Lust
2. Hellacopters – Dirty Woman
3. MARRE –You’re Mine
4. AC/DC – TNT
5. Stooges – Wanna be your dog
6. MARRE – Evil Eyes
7. Kiss – C’mon and Love Me
8. Joan Jett – Do you wanna touch
9. MARRE – Get Up Zombie
10. The Runnaways – Cherry Bomb
11. MARRE – Run Bastard

Foto por: Patrícia Martins

Não era um tracklist fácil, mas a banda foi do incrivelmente executado ao competentemente tocado, sem ter tido momentos ruins ou erros perceptíveis. O profissionalismo, substrato em falta no meio alternativo baiano, garantiu um bom momento rocker na cidade – que pôde ser confirmado com os fãs de Kiss e AC/DC headbangeando em frente ao palco. Eu mesmo, que pouco me nutro de rock and roll, cedi a bater os pezinhos com músicas que há muito não ouvia.
Dentre as canções, certamente os destaques foram para Cherry Bomb, C’mon and Love Me e duas canções próprias: a inédita e empolgante Get Up Zombie, e a melhor da banda, Run Bastard – que tem uma interessante, embora abrupta, transição de estilos no meio da música (do pop/hard rock para um blues com floreios jazzísticos). Tecnicamente a banda impressiona, ainda mais se tratando de um grupo novato. Tocar clássicos com competência e apresentar primeiras músicas já em nível acima do amador são um excelente sinal de trabalho maduro e sério. Destacam-se os dois ‘chefes’ da banda: Poliana (que se chama Magdalene no palco), cantora de voz potente, e PV (que se chama Paulo Victor fora do palco), lead guitar que já rodou algumas bandas feirenses e toca o instrumento como quem saboreia um capuccino em noite de inverno.
O refino técnico reflete escolha da banda em preferir primeiro gravar um EP a fazer shows de apresentação. Para a produção musical investiram pesado, contratando o renomado André T (que gravou Pitty e Retrofoguetes). Dado o tempo de incubação para comporem e arquitetarem seu som, a MARRE, formado ano passado, lançou este ano duas músicas – resultantes do trabalho com André T – que foram divulgadas no MySpace, no site da banda e em diversos blogs. Assim, apresentaram-se com maior maturidade do que é costumeiro para uma banda.
Se por um lado a banda deu um primeiro passo firme, por outro ainda precisa crescer muito no tocante à imagem como rock band. Isso se traduz principalmente no quesito presença de palco: os músicos ficaram bastante acanhados durante a apresentação, sem conseguir manter uma comunicação forte com a plateia. Em alguns momentos, pareciam tocar apenas para si próprios, preocupados em não errar uma nota. É genuíno o cuidado, mas muito do espetáculo musical tem de ser imagético e para isso não há tantos mistérios. A banda deve investir, em primeiro lugar, num figurino mais ousado que consiga se reportar aos gêneros que fazem parte de sua colagem harmônica. Em segunda questão, trabalhar a frontwoman. O centro do nome da banda é cantora Poliana transfigurada em Magdalene e, como diz texto no site do grupo, um de seus focos é inserir o feminino como elemento musical. Para tanto, a cantora deve ser mais feroz em palco, ter uma fala mais altiva, ser a principal centelha da explosão referida no título da banda. Por fim, não se pode esquecer que o grupo é, essencialmente, um duo e por isso explorar a relação entre PV e Magdalene, que são namorados, poderia gerar sacadas interessantes e seria um elemento de coesão e simbologia da MARRE – a exemplo da tônica entre Omar Rodríguez-López e Cedric Bixler-Zavala da The Mars Volta. Talvez PV possa adotar outro nome e também uma persona. Esta etapa é comum a todas as bandas que estão iniciando e a MARRE deve criar soluções criativas, tendo já feito algo nesse sentido: durante o show foi gravado seu primeiro videoclipe.

Foto por: Patrícia Martins

A se medir pelo que foi visto neste domingo, a banda transporá rapidamente o espaço oferecido por Feira de Santana, ainda mais por estar explorando um gênero que não é muito popular. Com suas músicas em inglês, ela pode muito bem conquistar fãs fora do país. Para isso, basta que continue mantendo o bom trabalho e também invista em divulgação – Facebook, Twitter e demais ferramentas ultracontemporâneas não devem ser menosprezadas. Depois do produtor musical, uma boa opção é procurar um assessor competente.
A MARRE está, atualmente, preparando o primeiro álbum. Por enquanto está sem shows marcados, mas foi sondada para abrir shows de uma banda carioca bastante conhecida – informação, entretanto, que ainda não pode ser divulgada. Certo é que esta banda vem juntar-se à Clube de Patifes e à Inema Trio como um dos pilares da música alternativa feirense, oferecendo pólvora e fogo para rachar o gélido reino da Princesa do Sertão.

P.S.: A banda anunciara a participação de Alexandre Damas como guitarrista na apresentação, mas ele foi substituído por outro músico. Damas, conhecido no meio roqueiro de Feira, passou o show ao lado do palco cantando as músicas com empolgação – inclusive as da MARRE – e soprando comentários zelosos para a banda. Ele prossegue ou saiu?


Marcelo Lima
Marcelo Lima é roteirista de HQs, produtor cultural, pesquisador do Instituto de Letras da UFBa, graduando em jornalismo e autor do álbum em quadrinhos Lucas da Vila de Sant'Anna da Feira.






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