Abertura do Feira Noise Festival mesclou diversidade e segmentação

Esta terceira edição do Feira Noise Festival é uma amostra de como o Feira Coletivo Cultural tem acompanhado o crescimento do Circuito Fora do Eixo pelo Brasil. Uma programação com mais de 30 atrações musicais e dezenas de oficinas, palestras, mesas-redondas e mostras cinematográfica proporciona a Feira de Santana uma renovação cultural que vem transformando o cenário independente.

Tudo começou no dia 28 de outubro, com o grupo de rap soteropolitano Versu2. As rimas de Blequimobiu e Coscarque logo cativaram os que foram ao bar San Domingo para ouvir rap. Até mesmo os pouco familiarizados com o estilo não ficaram indiferentes aos talentosos MCs, que focaram em alguns destaques do EP Apresento Meus Amigos. Quando a Versu2 saiu do palco, a professora, bailarina e coreógrafa Cina Chagas apareceu com sua dança do ventre em uma breve apresentação que encantou o público.

O show da Calafrio foi semelhante ao que aconteceu no festival Grito Rock este ano, e quem se importa? Sete meses depois, a banda liderada por Siddhartha Gautamma (vocal e guitarra) trouxe novamente o rock moderno, enérgico e poético bem conhecido pela plateia. As influências grunge são óbvias, mas músicas como “Ácido” e “Katiusha” – sempre pontos altos ao vivo – carregam uma força que as torna cada vez mais emblemáticas. As versões de “Nós Vamos Invadir Sua Praia (Ultraje a Rigor) e “Ouro de Tolo” (Raul Seixas), tocadas em meio aos sucessos, também agradaram.

A Trupe Mandhala Fusion, Grupo Experimental de Dança Étnica Contemporânea vinculado ao Feira Coletivo, também não precisou de muito tempo para mostrar seu estilo de várias tendências incorporadas em torno da dança tribal e para deixar um recado importantíssimo: Feira de Santana pode se desenvolver nesse segmento desde que surjam as oportunidades.

Outra atração local que retornou neste Feira Noise foi o Efeito Zumbi. O nome mais agregador do rap feirense se apresentou rapidamente, fazendo uma espécie de aquecimento para o show de MC Rashid e executando algumas canções do trabalho Sons Para Resistência. A interação é um dos principais méritos do grupo, envolvido em projetos sociais e adepto da “filosofia” de ser “um herói para a comunidade antes de tudo”, além das letras nas quais todo esse engajamento transborda e da segurança demonstrada no palco após mais seis anos de carreira.

Oriunda do movimentado cenário de Natal (RN), Talma & Gadelha é a típica banda simpática que conquista seus ouvintes nas primeiras audições. As músicas do álbum Matando o Amor são dançantes e lembram sonoridades sessentistas, o que já seria o bastante para gerar expectativas de um bom show. Ao vivo, no entanto, o grupo supera qualquer coisa que se possa esperar dele. O vocal de Simona Talma é extremamente seguro, embora a suavidade do timbre de Luiz Gadelha seja ainda mais impressionante. A bateria marcante de Emmily Barreto foi ditando o ritmo, enquanto parte do público cantarolava todas as letras e surpreendia positivamente os potiguares.

A presença de MC Rashid no festival era das mais aguardadas, pela repercussão do trabalho do rapper paulistano no país inteiro. Ele correspondeu à altura, começando com a emocionante “Poucos e Bons”. Entre improvisos e composições da famosa mixtape Dádiva e Dívida, Rashid fez questão de afirmar que o rap é arte e deve ter alcance amplo, sem qualquer restrição. O talento e a desenvoltura explicam o porquê de o jovem artista ser um expoente de uma nova geração de rappers que incluem Emicida e Projota, com os quais já fez parceria.

A igualmente esperada Madame Saatan não escondeu a satisfação de estar tocando em Feira de Santana. A todo instante, a vocalista Sammliz usava sua voz peculiar para não só para cantar o repertório, como também para se comunicar com o público. Havia um conterrâneo dos paraenses na plateia, segurando uma bandeira em homenagem à banda e pulando a cada som. A proposta de fazer metal cantado em português vem sendo assimilada por um público maior por conta da qualidade do trabalho feito, o que ficou evidente nos melhores momentos do show. Primeiramente, o início com “Respira”, faixa do recém-lançado Peixe-Homem; e duas músicas do primeiro álbum homônimo, a climática “Vela” e “Messalina Blues”, cujo título já entrega do que se trata. Nesta última, pedida em coro Sammliz temeu não se lembrar da letra, correu o risco e fez a alegria do público.
E já passavam das 04h30 quando a noite terminou. Não poderia ter sido melhor, mas é apenas o começo.


Texto: Ana Clara Teixeira

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